quarta-feira, 23 de maio de 2012

Dalton Trevisan




Pronunciamento literário


(por Ramon Barbosa Franco)


Havia acabado de presenciar uma série de fatos cotidianos ideais para as composições de contos. Sento à mesa da livraria ainda com as barras da calça molhadas pela lama, poça de enchente e sujeira que a enxurrada tinha levado para dentro de 10 casas da periferia de Marília, me coloco a conversar com o entrevistado. Me perdi nas perguntas, no motivo inicial da vinda daquele escritor e de seu colega para um evento literário na biblioteca municipal, acabando por levar uma chateada do literato. "Você, antes de sair da redação, precisa ler o release para saber sobre o assunto que irá escrever", me disse.
Só nestas linhas escritas há pouco já estariam assuntos suficientes para um romance social, uma análise do impacto ambiental causado pelo desordenamento da urbanização, matéria jornalística para a ocupação irregular de áreas de preservação ou que apresentem risco externo aos moradores, e, ainda, um manual de como um repórter deve abordar entrevistados com ares poucos amistosos diante de certas circunstâncias.
Este é um traço comum do conto, gênero literário conciso que encontra campo fértil na obra do recluso Dalton Trevisan, o brasileiro de Curitiba que acaba de ganhar o Prêmio Camões 2012. A comissão organizadora do prêmio, a mais elevada distinção literária para os escritores do idioma português (que, no passado, contemplou brasileiros como Ferreira Gullar, Autran Dourado, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado, além do português José Saramago), garantiu que o 'Vampiro de Curitiba' está ciente da conquista, mas não irá se pronunciar. 
Em tempo de pós-modernidade, com a duplicidade de vida, na quase antagônica relação do ser real (do corre-corre diário) para o ser plural e amistoso do ambiente virtual (com perfis em Orkut e Facebook), Dalton Trevisan, que no próximo dia 14 de junho completa 87 anos de idade, se mostra fiel ao seu voto de silêncio e à clausura midiática, feito irmãs clarissas que não deixam o convento nem mesmo para missa celebrada pelo papa.
Trevisan não se pronuncia, só escreve. 
O entrevistado da chateada ao repórter que acabara de deixar  a lama das inundações da favela do Linhão, no bairro Santa Antonieta, se revelou admirador de Dalton. "Eu não quero tomar café com o Dalton ou com o Rubem Fonseca (outro avesso à imprensa). Deles eu tenho o que há de melhor, ou seja, seus textos".
Ao contemplar o curitibano com o Prêmio Camões, o idioma português só valoriza ainda mais um dos gêneros que se encaixou perfeitamente ao pós-moderno. O conto, na velocidade da vida de hoje, é uma das formas mais eficientes do público ter acesso ao conteúdo literário de um autor. Se gostar, buscará outras variações de sua produção, seja em romance ou em novela. 
Independente deste comportamento atual, Dalton sempre fixou seus pés e sua literatura na narrativa concisa e, claro, na Curitiba de homens e mulheres. Extrai dos chamados fait-divers, os acontecimentos diários, a trama do próximo conto, da próxima escrita enxuta. Tudo isso sem ao menos ser reconhecido fisicamente pelo público: é apenas mais um que passa e olha, despercebido. Entretanto, quando chega em casa, surgirão novelas, todas exemplares. Está nesta toada, nesta composição ficcional do fait-divers o seu pronunciamento literário. Como disse, Dalton não fala, escreve. E perfeitamente, diga-se de passagem.
Ao homem que se ver um jornalista ou um repórter-fotográfico por perto, enchendo o saco, é bem capaz de ser mais incisivo do que o entrevistado que orienta repórter a ler o release antes de deixar a redação, parabéns e obrigado.




terça-feira, 22 de maio de 2012

Roberto Shinyashiki



Shinyashiki ensina que problema
é caminho do êxito das empresas 

(por Ramon Barbosa Franco)

ANTES de desembarcar em Marília, na terça-feira da semana passada, o psiquiatra Roberto Shinyashiki, um verdadeiro fenômeno em vendas de livros (foram mais de 7 milhões de exemplares), teve uma agenda intensa. Às 5 horas da manhã já estava em pé, atendendo atletas com potencial olímpico que treinam no Clube Pinheiros, no bairro de mesmo nome na capital paulista. “A preparação mental ajuda, de repente é aquele centésimo de milímetro que falta para o atleta conseguir o índice olímpico. Entretanto, existem outros fatores que farão este ou aquele atleta representar o Brasil em Londres”, disse. As Olimpíadas 2012 começam em julho e o autor de ‘Problemas? Oba!’ estará na Inglaterra, auxiliando no equilíbrio emocional e na determinação dos atletas brasileiros. Ao concluir a atividade no Clube Pinheiros, Shinyashiki se dirigiu ao aeroporto, onde aguardou o voo para Marília. Entre a espera do avião e o desembarque na cidade que marcou o início das operações da companhia área TAM, o psiquiatra redigiu trechos de seu novo livro, uma obra que irá dar detalhes de como ministrar palestras. O novo trabalho literário sai em agosto e tem tudo para repetir o êxito editorial de obras anteriores, como ‘A carícia essencial’, ‘O sucesso é ser feliz’ e ‘A revolução dos campeões’. Mesmo tendo passado antes por Denver e Nova Orleans, nos EUA, foi em Marília que Shinyashiki resolveu falar pela 1ª vez sobre o seu novo livro de auto-ajuda. É neste ritmo, entre uma viagem e outra, que Shinyashiki encontra tempo para produzir seus best-sellers ou revisar novas edições. Na conversa com os marilienses (sim, as palestras de Shinyashiki são tão próximas e íntimas do público que se assemelham a diálogos entre dois velhos conhecidos) o médico ensinou que, ao contrário do que possa parecer, problemas são fatores da engrenagem do êxito. “Muitas empresas e companhias cresceram e crescem diante de problemas. O Facebook foi o resultado para um problema, da mesma forma o Google. Ajudar a encontrar soluções é a base para o sucesso”, ensinou. Outro ensinamento deixado para os marilienses foi o âmbito mundial da pós-modernidade. “Hoje Marília não acontece no Estado de São Paulo, acontece no mundo. E numa velocidade impressionante. Esse dinamismo tem que ocorrer”, disse. Ao concluir a palestra, realizada no espaço Golden, em Lácio, Shinyashiki voltou para o hotel, onde terminou o seu dia. Recomeçaria na manhã seguinte, quando embarcaria para São Borja, a 1.300 quilômetros. Na terra natal do ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954), o autor de ‘Problemas? Oba!’ daria novo capítulo à jornada de ensinar.

(originalmente, publicado na edição de 20 de maio de 2012 do jornal Correio Mariliense)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Prêmio Camões 2012


DALTON TREVISAN VENCE O PRÊMIO CAMÕES 2012 

Silviano Santiago: "A escolha de Dalton Trevisan foi unânime. Houve uma discussão maravilhosa entre os membros do júri de cerca de duas horas e depois chegamos a essa decisão consensual. Primeiramente, pela contribuição extraordinária de Dalton Trevisan para a arte do conto, em particular para o enriquecimento de uma tradição que vem de Machado de Assis, no Brasil, de Edgar Allan Poe, nos EUA, e de Borges, na Argentina. Dalton Trevisan leva adiante essa tradição notável com uma nota muito pessoal. Também o escolhemos pelo modo como ele trabalha o conto a partir de uma linguagem concisa, direta, chegando a aproximar o conto de um poema em prosa e de um hai-kai. Além disso, o tratamento que ele dá ao fait-divers, aos pequenos acontecimentos do cotidiano, como em O vampiro de Curitiba, faz com que ilumine os pequenos dramas do cotidiano. Ele nos mostra que somos todos como Joaquim, o nome de uma revista muito importante que ele fundou e dirigiu nos anos 1940". 

O vencedor da edição de 2012 do Prêmio Camões é o escritor Dalton Trevisan. 
O nome acaba de ser anunciado em Lisboa, pelo secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, onde os seis membros do júri se reuniram na manhã desta segunda-feira, dia 21 de maio. O brasileiro, que completa, dia 14 de junho, 87 anos, foi premiado pela sua "dedicação ao fazer literário", disse o escritor Silviano Santiago, membro do júri. Trevisan é autor de livros como "Vozes do Retrato - Quinze Histórias de Mentiras e Verdades" (1998), "O Maníaco do Olho Verde" (2008), "Violetas e Pavões" (2009), "Desgracida" (2010) e "O Anão e a Ninfeta" (2011) são algumas das suas obras. "O Vampiro de Curitiba" (1965) é uma das suas obras mais conhecidas. O Prêmio Camões, instituído em 1988 e concedido sem interrupção há 24 anos, foi criado para intensificar e complementar as relações culturais entre Brasil e Portugal e conta com a adesão de outros Estados da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP). O valor do prêmio é de 100 mil euros, pagos conjuntamente e em partes iguais pelos governos de Brasil e Portugal. O júri tem mandato de dois anos e é composto por seis pessoas: dois representantes do Brasil, dois de Portugal e dois de outros países onde o português seja a língua oficial. Nesta 24ª edição, participam do júri os brasileiros Alcir Pécora e Silviano Santiago; os portugueses Abel Barros Baptista e Rosa Maria Martelo; o moçambicano João Paulo Borges Coelho e a angolana Ana Paula Tavares. A Fundação Biblioteca Nacional (FBN), vinculada do Ministério da Cultura (MinC), é a responsável pela parte brasileira do Prêmio, trabalho que inclui a indicação de membros do júri e o pagamento do premiado. Em Portugal, a mesma função é realizada pela Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, subordinada à Secretaria de Estado da Cultura. O júri se reúne alternadamente, a cada ano, em Portugal ou Brasil.
PERFIL DOS JURADOS

Abel Barros Baptista: Professor de literatura brasileira na Universidade Nova de Lisboa. É autor de uma série de livros sobre literatura brasileira e portuguesa, como Camilo e a Revolução Camiliana (Lisboa Quetzal, 1988), sobre Camilo Castelo Branco, e Em Nome do Apelo do Nome. Duas Interrogações sobre Machado de Assis (Lisboa, 1991, Prémio de Ensaio do Pen Club de Portugal; Campinas, Unicamp, 2003).

Alcir Pécora: Professor livre-docente do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É autor de Teatro do Sacramento: a unidade teológico-retórico-política nos Sermões de Vieira (Edusp/Editora da Unicamp, 1994), Máquina de gêneros (Edusp, 2001) e As Excelências do governador (Companhia das Letras, 2002), em co-autoria com Stuart Schwartz. É organizador de obras com textos do Padre Antonio Vieira e com outros autores dos séculos XVI e XVII. Também organizou as obras completas de Hilda Hilst e as obras reunidas de Roberto Piva, ambas para a Editora Globo, e colabora para o jornal Folha de S. Paulo e a revista Cult.

Ana Paula Tavares: Poeta e historiadora, nasceu na cidade de Huíla, no sul de Angola, em 1952. É autora de uma série de livros de poesia, como Ritos de passagem (União de Escritores Angolanos, 1985) e outros publicados em Lisboa pela Editorial Caminho, como O lago da lua (1999), Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001), obra que recebeu o Prêmio Mário António de Poesia 2004 da Fundação Calouste Gulbenkian, e Ex-Votos (2003). Em 2004, publicou também pela Caminho a coletânea de crônicas A cabeça de Salomé. É autora de ensaios sobre a história de Angola.

João Paulo Borges Coelho: Historiador e escritor moçambicano, é professor associado no Departamento de História da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Estreou na ficção em 2003, com o romance As duas sombras do rio e, em 2005, recebeu o Prêmio José Craveirinha por As visitas do dr. Valdez. Em 2010, publicou O olho de Hertzog, Prêmio Leya de 2009. Seu mais recente livro é Cidade dos espelhos, do ano passado. Moçambique inspira sua ficção.

Rosa Maria Martelo: Professora associada agregada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde leciona literatura portuguesa moderna e contemporânea e poéticas comparadas. É autora de livros como Estrutura e transposição – Invenção poética e reflexão metapoética na obra de João Cabral de Melo Neto (1990), Vidro do mesmo vidro – Tensões e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961 (2007), A porta de Duchamp (2009) e A forma informe – Leituras de poesia (2010).

Silviano Santiago: Professor emérito da Universidade Federal Fluminense (UFF), é autor de vasta obra de ensaios e ficção, como Em Liberdade (romance, 1981), Stella Manhattan (romance, 1985), Nas malhas da letra (ensaios, 1989), O cosmopolitismo do pobre (ensaios, 2004), As raízes e o labirinto da América Latina (ensaio, 2006), Heranças (romance, 2008) e Anônimos (contos, 2010). É editor da revista bilíngüe, espanhol/português, Margens/Márgenes e colunista do suplemento Sabático, do jornal O Estado de S. Paulo. 

Todos os vencedores do Camões: 

1) 1989: Miguel Torga (poeta e romancista português) 
 2) 1990: João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro) 
3) 1991: José Craveirinha (poeta moçambicano) 
4) 1992: Vergílio Ferreira (romancista português) 
5) 1993: Rachel de Queiroz (romancista brasileira) 
6) 1994: Jorge Amado (romancista brasileiro) 
7) 1995: José Saramago (romancista português) 
8) 1996: Eduardo Lourenço (crítico literário e ensaísta português) 
9) 1997: Pepetela (romancista angolano) 
10) 1998: Antonio Candido (crítico literário e ensaísta brasileiro) 
11) 1999: Sophia de Mello Breyner Andresen (poeta portuguesa) 
12) 2000: Autran Dourado (romancista brasileiro) 
13) 2001: Eugénio de Andrade (poeta português) 
14) 2002: Maria Velho da Costa (romancista portuguesa) 
15) 2003: Rubem Fonseca (romancista brasileiro) 
16) 2004: Agustina Bessa Luís (romancista portuguesa) 
17) 2005: Lygia Fagundes Telles (romancista brasileira) 
18) 2006: José Luandino Vieira (escritor angolano; recusou o Prêmio Camões) 
19) 2007: António Lobo Antunes (romancista português) 
20) 2008: João Ubaldo Ribeiro (romancista brasileiro) 
21) 2009: Armênio Vieira (escritor de Cabo Verde) 
22) 2010: Ferreira Gullar (poeta brasileiro) 
23) 2011: Manuel António Pina (poeta, cronista, dramaturgo e romancista português)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

As palavras de um sábio



Arte ou desarte, eis a questão 

(por Sérgio Ricardo)

Subo na porteira de meus oitenta anos, vindo da nação vivida ao longo da estrada à minhas costas, para aboiar minha soltura pelo atalho que me resta. Honrado e gratificado com o carinho que tenho recebido de todos pelo caminho, colho do braseiro algumas considerações a respeito dos entraves que vejo poluir o universo de nossa cultura embarreirando a atividade participativa de nossos verdadeiros talentos, esperançado em não malhar em ferro frio. Aprendi que a arte é a principal presença exigida em toda e qualquer habilidade intrínseca de cada ser, na construção da evolução da espécie. Desde aquela arte que vence guerras sem derramamento de sangue, às artes científicas nas investidas espaciais ou cura do câncer, ou das mãos femininas numa singela arrumação de flores, até a arte de uma presidente ao assinar a instalação da "Comissão Da Verdade". Assim como aquela arte que conduz o pincel de um Portinari, ou ergue o brado de um Ulisses Guimarães, as defesas de um Sobral Pinto, a voz de uma Elis, o comando de ação de um Glauber, ou na voz de um poeta de feira a improvisar sua cantoria ausente dos registros, mas que se crava no inconsciente coletivo. Também a arte do professor, do pedreiro, e das infinitas ocupações dos que se dedicam à arte do labor pelo bem de todos. Não aquela que se cinge no lombo da boiada a desembestar pelas concessões, distorções de conteúdo, ou modismos passageiros para enriquecer o fazendeiro da egocêntrica ambição de poderes na vasta plantação das desigualdades, em guerras sangrentas, na construção da miséria da grande maioria da humanidade, utilizando-se do espaço da arte verdadeira para impor a sua "desarte" e iludir e desiludir os incautos. O "desartista", encontrado em abundância em todas as áreas do planeta. Sob este teto generoso de nosso país, que abrigou no passado tão inspirada e eloqüente criatividade, à qual devemos o respeito pela histórica contribuição em variadas áreas, ao revelar a grandeza emanada de nosso povo como matéria prima de um produto cultural de grande abrangência, admirada e cultuada por outros povos, venho lembra-los do temporal que se desaba sobre ela, face à inversão cruel de valores, atavismo resultante de nosso complexo de povo colonizado, atingindo hoje o maior grau da escala. A ausência da arte a que me refiro, está provocando um retrocesso de nosso pensamento, passando como um trator a esmagar valores herdados do empenho de inspirados criadores, desbravadores de um caminho esculpido em duras pedras, sob o cinzel de grandes artistas revelando o espirito de nossa gente. Do fundo de meu desconforto colho uma pergunta às instituições: não poderiam elas aceitar, a exemplo de Dilma, o desafio de uma mobilização efetiva e afetiva, em mutirão com as frentes voltadas à retomada da dignidade exigida, para que unidos pudéssemos recolocar a locomotiva nos trilhos, arrastando os numerosos vagões de nossa arte, carregados de nossos valores, varando estradas a desovar em cada brasileiro o verdadeiro alimento de sua cidadania? Acuados e apáticos diante dos obstáculos que o sistema nos impinge, a cada recuo, vamos chegando à beira do precipício de nossa personalidade criativa, prestes a nos atirar no limbo de uma nação sem espírito. Por mais que estatutos ou normas impeçam cada entidade de se manifestar, creio que é chegada a hora da superação formal, para uma ação conjunta que venha restituir, a exemplo da integridade de nossos ancestrais, a dignidade de nosso povo, e recriar o verdadeiro caráter de nossa inventividade, abrindo uma picada na selva dessa mediocridade que se alastrou. Há um nó estancado no ar, ha muito tempo. Não estará na hora de desatá-lo? Não nos falta a arte necessária para tecer a urdidura de uma solução. Sem que minha sugestão resvale nalguma suposta crítica à atuação dessa ou daquela entidade voltada, de uma ou outra forma, para o envolvimento com o tema exposto, venho sugerir a seus cidadãos criadores, com poderes de transformação, a busca de um engajamento no processo político-cultural, atendendo ao chamamento de nosso dom agonizante, antes que a indiferença venha a se tornar a causa mortis da alma brasileira. Há um sorrateiro objetivo neste sentido, advindo, seja do sistema a permitir a invasão e imposição de culturas externas com seus tentáculos e a ganância pela conquista de nosso mercado, de nosso território, visando sobre tudo o lucro; seja pela insensibilidade da maioria dos governantes, muitos dos quais aptos à subserviência, outros por despreparo ou desatentos aos perigos dessa corrosão de nossa identidade; seja, ainda, pela ignorância de adeptos da balela da globalização, enlatando conceitos, formas, estética, conteúdos, etc. ignorando as ricas particularidades de nossa nação, favorecendo as sub-reptícias intenções de um sistema agonizante, deteriorando-se a olhos vistos. É como se a natureza estipulasse, de repente, que o único pássaro permitido no espaço fosse o morcego, para que tivéssemos que passar a vida a contemplar suas vampirescas revoadas. Remanescente dos anos de chumbo, provei do amor por uma causa junto a uma multidão de iguais, e dela nunca me arrependi, mesmo tendo mergulhado no ostracismo por anos a fio. Nada superou aquela entrega. O mérito não me pertenceu. Atrelei-me à opção feita pela união e fé de muitos, o que me proporcionou a profunda felicidade de identificar-me com algo maior e abrangente, enlaçado a outros seres num mesmo propósito. Esta felicidade não tem preço. Pagou-se caro, é verdade. Torturas, prisões, exílios, etc., mas mesmo assim não me deparei com nenhum arrependido. Pois bem. Era uma tentativa de mudança do regime, do fim da miséria e das desigualdades. Barra difícil de segurar. Nada comparável com à singeleza da proposta aqui sugerida. Entregar-se à salvação de nossa arte? Não serão preciso canhões para impedir. Ao contrário. Neste mutirão cabe a participação de qualquer seguimento da sociedade, principalmente do governo. É só a arte de nosso amor entregue à transformação. Uma lista interminável de nossos ancestrais está por aí, renascente, espalhada entre a juventude contemporânea, amargando pelos cantos sua marginalização, a espera de uma chance que lhes renda, se não a glória merecida por sua contribuição, pelo menos um mercado de trabalho para a sobrevivência de sua arte. Estamos deixando escapar por entre os dedos de nossa indiferença um rio caudaloso de talentos que poderia estar desaguando na evolução de nosso pensamento, represando a imagem de um país respeitável, não tão somente por nosso futebol ou nosso carnaval. Ou por meia dúzia de valores remanescentes de um breve momento interrompido, que, com raras exceções, se acomodaram na ausência de concorrência, como se fossem a derradeira safra, a desfrutar de uma gloria intocável e comprometida, amparados pelos jabás do sistema. Nossa diversidade artística é tão importante quanto a nossa fauna ou flora e não precisamos de revoada de morcegos para colorir nosso espaço. Temos uma profusão de aves em bando para embelezar nossa paisagem. É só abrir as gaiolas e acabar com esta degradante cena diária de mãos estendidas entre grades, para a esmola de uma chance de devolver à nação sua própria alma. Se cada qual empenhar sua força criadora, a exemplo da recente reação deflagrada pela arte dos comandantes da CPI do direito autoral e da justiça, na condenação dos algozes em nosso caminho, é de se esperar o afunilamento de uma solução, atendendo aos reclamos de uma mirrada camada desperta de resistentes. Oxalá!!! Somemo-nos, pois. A solução, cedo ou tarde, terá que brotar do somatório de um entendimento geral, sob pena, pelo tempo que corre, de passarmos para a história como uma geração estéril, para o desapontamento de nossos descendentes ao nosso legado. Termino meu aboio, descendo da porteira dos meus oitentinha, retomando a estrada que me resta no lombo desse jegue, enxada às costas, para ir semeando beijos aos verdadeiros artistas brasileiros que me passaram esta lição, apoiando uma campanha imediata de reconhecimento à arte política de um gesto que passa para a história do país: 
"UM BEIJO PARA DILMA!!!"

Sérgio Ricardo, 79, é cantor, compositor, cineasta, escritor e artista plástico. Nasceu em Marília, em junho de 1932, responsável por trilhas sonoras inesquecíveis do Cinema Brasileiro, como de 'Deus e o diabo na terra do sol', de Glauber Rocha

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Literatura grapiúna


Contos do Japim




(por Ivan Evangelista Jr.) 

Fim de jornada amigos.
Mas antes de desligar o computador quero compartilhar uma experiência boa que tive.
Terminei a leitura do "Contos do Japim", livro de autoria do amigo e jornalista Ramon Barbosa Franco.
Textos envolventes, literatura fácil e chamativa, onde há vários trechos em que somos consumidos pelo enredo e nos identificamos com os personagens. 
Recomendo a todos.
Parabéns Ramon, que venham outras obras.
(postado no Facebook, quarta-feira, 16 de maio de 2012)

Ivan Evangelista Jr. é diretor de marketing e professor universitário do centro universitário Univem

Maria Rita Kehl



30% de desconto nos livros sobre a ditadura militar brasileira e de autoria de Maria Rita Kehl 

A Boitempo oferece promoção especial para saudar a instalação da Comissão Nacional da Verdade (cuja solenidade de posse aconteceu hoje pela manhã, em Brasília), que conta com a participação da psicanalista Maria Rita Kehl, autora de diversas obras publicadas pela editora. De 16 a 23 de maio de 2012, nas compras feitas diretamente com a editora, livros que abordam a ditadura militar brasileira e de autoria de Maria Rita Kehl poderão ser adquiridos com 30% de desconto. Maria Rita Kehl foi jornalista entre 1974 e 1981, tendo publicado artigos em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Editou a seção de cultura nos jornais Movimento e Em Tempo, periódicos de oposição à ditadura militar. É formada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) onde realizou pesquisa de mestrado em psicologia social, com a dissertação "O Papel da Rede Globo e das Novelas da Globo em Domesticar o Brasil Durante a Ditadura Militar", e doutora em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atua desde 1981 como psicanalista em clínica de adultos em São Paulo e, desde 2006, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guararema (SP). É autora de O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano de Não Ficção em 2010; da coletânea de crônicas e artigos 18 crônicas e mais algumas (Boitempo, 2011) e Videologias: ensaios sobre a televisão (Boitempo, 2004 – em coautoria com Eugênio Bucci), entre outros. É colunista esporádica do Blog da Boitempo. Leia textos da psicanalista sobre a ditadura militar brasileira clicando aqui. Em 2010 a Boitempo publicou a coletânea O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizada pelos filósofos Edson Teles e Vladimir Safatle. O livro reúne uma série de estudos que apresentam diversas perspectivas para as reminiscências da ditadura militar no Brasil contemporâneo. Dentre os autores, estão Jaime Ginzburg, Jeanne Marie Gagnebin, Paulo Arantes, Ricardo Lísias, Tales Ab'Saber e a própria Maria Rita Kehl. Confira abaixo seleção de títulos sobre a ditadura militar. O contato para a compra dos livros com desconto deve ser feito para o e-mail vendas01@boitempoeditorial.com.br, com o assunto “Promoção Comissão da Verdade”. O pedido deve conter o endereço completo (com CEP) para cadastro como cliente e cálculo do frete (para pedidos abaixo de R$ 150,00 líquido), além do número do RG e CPF. Nas compras acima de R$150,00 o frete será grátis para todo o país. O pagamento será feito por meio de depósito em conta corrente a ser posteriormente informada. A promoção está sujeita à disponibilidade dos livros em estoque. 
Caso o título solicitado esteja em falta, o comprador será informado antes da conclusão do pedido.